Unidade de ar condicionado de parede branca, em grande plano, com a temperatura de 22 graus no visor

O que acontece ao ar condicionado numa casa fechada seis meses

É a situação mais comum no Algarve e uma das menos acauteladas. Fecha-se a casa em outubro, trancam-se as portadas, desliga-se tudo. Volta-se em maio, abrem-se as janelas, liga-se o ar condicionado — e vem aquele cheiro.

A explicação é mais interessante do que parece, e envolve três coisas diferentes que acontecem ao mesmo tempo.

1. A humidade não sai

Uma casa fechada no Algarve entre outubro e abril tem humidade relativa consistentemente alta. Não chove todos os dias, mas o ar não circula, não há aquecimento a secar o ambiente, e a proximidade do mar mantém o teor de vapor elevado.

Dentro da unidade de ar condicionado, isso significa sete meses de superfícies húmidas no permutador e no tabuleiro de condensados, em escuridão total, a uma temperatura amena, sem qualquer corrente de ar.

É importante perceber que isto é pior do que durante a utilização. Quando o equipamento trabalha, há caudal de ar constante, e muitos modelos têm uma função de secagem que deixa a ventoinha a trabalhar alguns minutos depois de desligar, precisamente para secar o permutador. Parado, não há nada a contrariar a humidade.

2. Os fungos aproveitam

As condições descritas acima são, textualmente, as que os fungos precisam: humidade, escuridão, temperatura amena e matéria orgânica. A matéria orgânica já lá está — o pó, o pólen e as fibras que se acumularam durante o verão anterior.

Os géneros mais frequentemente encontrados em unidades de climatização são o Aspergillus, o Penicillium e o Cladosporium. Formam biofilme sobre as lamelas do permutador e nas pás da turbina, e é esse biofilme que produz os compostos responsáveis pelo cheiro.

Quando se liga o aparelho em maio, o ventilador arranca e empurra sete meses de crescimento para dentro da divisão, concentrado nos primeiros minutos.

3. Os ácaros instalam-se — mas não onde se pensa

Esta parte é mal explicada por toda a gente, por isso vale a pena ser preciso.

Os ácaros do pó não vivem dentro do ar condicionado. Vivem nos têxteis: colchões, almofadas, sofás, tapetes, cortinados. Alimentam-se de células de pele e precisam de humidade ambiente para sobreviver.

As condições ótimas para a sua proliferação situam-se entre os 20 e os 30 °C com humidade relativa entre 65 e 80%. Abaixo dos 50% de humidade relativa a sobrevivência cai drasticamente, e há estudos que registam mortalidade total de ácaros adultos em quatro a onze dias com humidade abaixo de 40% e temperatura abaixo de 25 °C.

Por outras palavras: uma casa fechada no inverno algarvio está exatamente na janela em que os ácaros prosperam, e o que está nos colchões e nos sofás em maio não é o que lá ficou em outubro — é bastante mais.

O papel do ar condicionado aqui é duplo, e é onde a história se cruza.

Primeiro: um equipamento a funcionar bem retira humidade do ar. Baixar a humidade relativa para a casa dos 45 a 50% é a medida ambiental mais eficaz que existe contra ácaros. Um equipamento com o permutador obstruído desumidifica mal, porque a capacidade de arrefecimento caiu — e com ela a condensação.

Segundo: o que os ácaros deixam é alergénio em partículas finas, que se levantam com o movimento do ar e circulam pela divisão. Um aparelho com filtros saturados e turbina suja não retém nada e sopra tudo.

Ou seja: o ar condicionado não é onde os ácaros vivem, mas é o que determina se as condições lhes são favoráveis e se os alergénios ficam em suspensão.

O que fazer antes de reabrir

Abra a casa antes de ligar seja o que for. Janelas abertas, corrente de ar cruzada, umas horas. Baixa a humidade acumulada e evita que o primeiro arranque do equipamento espalhe tudo numa casa fechada.

Não ligue o ar condicionado à pressa. Se vai ser limpo, limpe-se antes do primeiro arranque. Ligar primeiro é distribuir pela casa o que está lá dentro.

Trate os têxteis. Roupa de cama lavada a 60 °C, colchões e sofás aspirados, cortinados lavados. Nada disto é trabalho de climatização, mas é metade do problema.

Agende a limpeza para abril ou maio. Não para agosto, com a casa cheia. A altura certa é antes da primeira utilização da temporada.

E se a casa é sua mas quem a gere é outra pessoa

É o caso da maioria das moradias de Quinta do Lago, Vale do Lobo e Almancil. Nessas situações, a limpeza anual de climatização deve entrar no plano de abertura da propriedade, ao lado da piscina, da jardinagem e da limpeza geral — não ser pedida à pressa quando alguém se queixa do cheiro.

Para gestoras de propriedades, planeamos por propriedade e entregamos registo do que foi feito em cada unidade.

Sala de uma moradia moderna no Algarve com ar condicionado de parede e vista para a piscina e o mar
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